A abordagem baseada em risco em PLD parte do princípio de que a instituição deve concentrar mais esforço de prevenção à lavagem de dinheiro onde o risco é maior. Em vez de tratar todos os clientes da mesma forma, ela classifica clientes, produtos e canais por nível de risco e aplica controles proporcionais a cada situação.
No mercado de valores mobiliários, esse princípio está no centro da Resolução CVM 50. Por isso, as instituições precisam avaliar internamente seus riscos e documentar os critérios utilizados nessa análise.
Explicar a teoria é simples. Aplicar, nem tanto. Por isso, este artigo mostra a abordagem funcionando na prática, com três clientes fictícios passando pela mesma metodologia.
A metodologia usada na simulação
A simulação utiliza uma matriz simplificada, com quatro fatores pontuados de 1, para risco baixo, a 3, para risco alto:
- Perfil do cliente: atividade, origem do patrimônio e condição de PEP.
- Geografia: país de residência e jurisdições envolvidas nas operações.
- Produtos e operações: complexidade, liquidez e volume.
- Canal de relacionamento: presencial, digital ou por intermediário.
Depois disso, a soma dos pontos define a classificação: até 6 pontos, risco baixo; de 7 a 9, risco médio; 10 ou mais, risco alto.
Vale destacar que esta é uma matriz ilustrativa. Cada instituição deve construir a sua, com fatores e pesos coerentes com sua própria avaliação interna de risco.
Cliente A: servidora pública aposentada
Contexto: pessoa física residente no Brasil, renda de aposentadoria compatível com o patrimônio declarado, investe em renda fixa e fundos abertos, conta aberta pelo aplicativo.
| Fator | Pontuação | Justificativa |
|---|---|---|
| Perfil | 1 | Renda e patrimônio compatíveis e documentados |
| Geografia | 1 | Residente no Brasil, sem operações no exterior |
| Produtos | 1 | Renda fixa e fundos de baixa complexidade |
| Canal | 2 | Onboarding digital, sem contato presencial |
| Total | 5 | Risco baixo |
Medidas: diligência padrão, atualização cadastral no prazo regular e monitoramento automatizado das operações.
Nesse caso, a combinação entre perfil, geografia e produtos gera uma exposição reduzida. Por isso, os controles podem seguir o fluxo padrão da instituição.
Cliente B: empresário do setor de importação
Contexto: sócio de empresa importadora, patrimônio relevante, opera ações e derivativos, faz transferências frequentes de e para contas de terceiros.
| Fator | Pontuação | Justificativa |
|---|---|---|
| Perfil | 2 | Atividade com maior exposição a comércio exterior |
| Geografia | 2 | Relações comerciais com outras jurisdições |
| Produtos | 3 | Derivativos e alto volume operacional |
| Canal | 1 | Relacionamento presencial com assessor |
| Total | 8 | Risco médio |
Medidas: comprovação adicional da origem dos recursos, atenção a transferências envolvendo terceiros e revisão cadastral em prazo mais curto.
Aqui, o risco aumenta pela combinação entre atividade econômica, relações internacionais e complexidade das operações. Assim, a instituição precisa aprofundar a análise e aumentar a frequência das revisões.
Cliente C: dirigente de empresa estatal
Contexto: pessoa exposta politicamente, patrimônio em crescimento acima da renda declarada, aportes concentrados em curto período, conta aberta por intermediário.
| Fator | Pontuação | Justificativa |
|---|---|---|
| Perfil | 3 | PEP com evolução patrimonial a esclarecer |
| Geografia | 1 | Residente no Brasil |
| Produtos | 3 | Aportes concentrados e de valor elevado |
| Canal | 3 | Relacionamento iniciado por intermediário |
| Total | 10 | Risco alto |
Medidas: diligência reforçada, aprovação do relacionamento por nível hierárquico superior, monitoramento mais frequente e análise da compatibilidade entre patrimônio e movimentação.
Além disso, se a incompatibilidade persistir, a instituição deve avaliar a necessidade de comunicação ao COAF, conforme seus procedimentos internos e as regras aplicáveis.
O que a simulação ensina
A classificação muda os controles, não o cliente
Risco alto não significa recusar o cliente. Na prática, significa aplicar controles mais rigorosos e documentar a decisão de manter o relacionamento.
Portanto, a classificação não funciona como uma sentença, mas como um parâmetro para definir o nível de diligência necessário.
A justificativa vale tanto quanto a nota
Em uma fiscalização, a pontuação isolada não basta. Por isso, a coluna de justificativa é essencial para demonstrar que a classificação seguiu critérios objetivos e não apenas uma impressão do analista.
Além disso, uma justificativa bem documentada facilita revisões futuras e dá mais consistência ao processo.
A classificação precisa ser dinâmica
O Cliente A pode passar a risco médio se começar a operar produtos complexos ou receber recursos de terceiros. Da mesma forma, um cliente de risco médio pode mudar de classificação quando seu comportamento, patrimônio ou padrão de movimentação se altera.
Por isso, a matriz deve ser recalculada sempre que houver mudança relevante.
Da planilha ao processo
Uma simulação com três clientes cabe em uma planilha. Porém, uma base com milhares de clientes, operações diárias e reclassificações contínuas exige outro nível de controle.
Nesse cenário, automatizar a abordagem baseada em risco permite aplicar a matriz a toda a base, recalcular a classificação a cada mudança relevante, direcionar alertas conforme o nível de risco e manter o histórico de cada decisão.
Além disso, a automação ajuda a reduzir análises manuais repetitivas e melhora a rastreabilidade das decisões tomadas pela equipe de compliance.
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Perguntas frequentes
A abordagem baseada em risco é obrigatória?
No mercado de valores mobiliários, a Resolução CVM 50 adota esse princípio. Por isso, as instituições precisam avaliar e documentar seus riscos de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.
Quem define os critérios da matriz?
A própria instituição define os critérios com base em sua avaliação interna de risco. Além disso, a governança deve aprovar essa metodologia e revisá-la periodicamente.
Classificação de risco e suitability são a mesma coisa?
Não. O suitability avalia se o produto é adequado ao perfil de investimento do cliente.
Já a classificação de risco de PLD avalia a exposição da instituição à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.
Portanto, são análises diferentes, ainda que ambas utilizem informações sobre o cliente.
Aplique a abordagem à sua base
A abordagem baseada em risco em PLD só gera proteção quando a instituição a aplica de forma consistente, documentada e atualizada.
Por isso, o valor da metodologia não está apenas na classificação inicial, mas também na capacidade de acompanhar mudanças ao longo do relacionamento.
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